Friday, November 28th, 2008

Nova casa

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Friday, September 5th, 2008

amor

com cobertura de fígado. e mais um pouquinho no recheio.

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Thursday, August 28th, 2008

A.

      O amor é lindo. O amor é feio, também. Ao mesmo tempo, difícil definir dessa forma. Talvez ele ser a união de opostos solucionasse, mas ainda não é o suficiente. O amor é suco.

      Sem uma cor definida ou fixa, mas o amor é feito no liquidificador. É preciso um cérebro (por onde passam todos aqueles impulsos nervosos de sentimentos), um coração (pelo simbolismo), um estômago (não há explicação científica, mas empiricamente provado por quem já amou que é necessário) e uma pitada de fígado, a gosto.

   Coado, este líquido, amor, fica com características instáveis não explicadas pela química. Sua variação a condições de pressão e temperaturaé tênue e desprovida de sentido.

   Dentre tudo o mais importante e o ponto de ebulição.  Frágil a influências de fatores externos, o amor tem um ponto de ebulição  que pode causar vastos efeitos e se situa em valores para além das escalsa existentes. E quando vai, foi. Não se perde, não se cria. Transforma.

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Thursday, August 28th, 2008

nightmare before bed

   Aos três anos, não entendia por quê algumas vezes derrubar comida para fora do prato era tão pior do que esconder todas as ferramentas da caixa de ferramentas em diferentes cômodos da casa, quintal incluso.

   Verdade é que se as crianças soubessem todas as vezes nas quais as broncas que levam tem raiz nas problemáticas vidas dos adultos, ficariam muito menos culpadas. Aos nove tinha aprendido que quando levava um puta xingão e os pais se trancavam no quarto a culpa não era sua. Não havia o que fazer, talvez contar até dez e escolher algum brinquedo ou desenho. Era preciso aprender a viver com essa injustiça.

   Treze. Por si só uma idade ruim de se viver. Nessa época já sabia que quando era quebra-pau por causa de louça era a desculpa. Uma ou outra vez aproveitou para quebrar “sem querer” um prato ou um copo, melhor quando um dos preferidos da casa. O maior arrependimento do mundo era a curiosidade. Curiosidade que permitiu entreouvir diversos gritos e chegar a algumas conclusões. Que se os motivos eram sempre os mesmos, não haviam solução. Mas o pior foi quando percebeu sero principal assunto.

   Aí reina o pesadelo infantil, a primeira vez que a criança se vê de frente a refletir sobre um relacionamento.  Não é  como amor, pois essa palavra só depois deixa de ser questão de novela da Globo, mas ser o escudo e a arma em uma guerra que você não quer que exista. E também o espectador. Que fica em casa, com o radinho de pilha, acompanhando lance a lance ansioso pelo final e por um resultado que quase nunca corresponde com a realidade.

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Wednesday, August 27th, 2008

Filtrando palavras

Escrever é sempre aquele momento especial. Já começa na pré-produção, esquentar a água, ligar o computador, tirar o telefone do gancho e ficar só de meia. Há toda a postura do processo. Muitos falam da musa inspiradora, do insight divino, mas essas coisas não são nada se o teclado não estiver cerca de 26º inclinado para a esquerda ou direita, a xícara de café perigosamente ao lado, as costas levemente tortas (em um movimento constante e uniforme de ser esticada, quando a musa da imaginação dá uma cochilada). Realmente, uma arte. Do tipo que ninguém ensina na escola ou na faculdade (qualquer faculdade). Arte naquele sentido que ninguém conceituou, mas que todo mundo usa (ou seja, querendo dizer nada).

Instantes depois, vem a escrita. Curioso é que, caso o texto tenha um mínimo de qualidade, o leitor nunca vai descobrir  quais foram as idas e voltas do processo de produção do mesmo.Ninguém pensa, também, nesses fantasmas literários. “Essa palavra ele checou todos os sinônimos do Word, mudou a frase e até a história e resolveu voltar pra idéia inicial” ou “Vale constar que esse espaço em branco seria preenchido por um parágrafo que provava matematicamente a não existência da espécie humana”.

Não se lê, mas está lá. Em todos os textos, todos, há o apagado, o substituído, o que sequer escrito foi, mas apenas pensado e o que nem quem escreve sabe que foi levado em conta, foi apenas vivido.

Escrever é estar fadado a esta reconstituição especial de si próprio.

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Friday, May 9th, 2008

Dois suspiros

Dormiam juntas já havia alguns meses. Aquela rotina quase diária, que se adequava a momentos diferentes da vida e do seu humor. A vergonha de ramelas e outras coisas íntimas necessárias ao acordar diminuíra na mesma proporção que o ímpeto de se manter acordada desnecessariamente apenas por companhia.

Mas sabia que o gostar (e isto é algo que o senso comum ainda demora a perceber) não se dá em linha reta. O fim, de diferentes maneiras, se aproximara algumas vezes e nem sempre fora seguido de um outro começo (às vezes de um meio, outras de dois quintos). Bom e ruim, os dois, seja lá o quê.

Monotonia para as pessoas monótonas. Um luxo que não é para todos, também não depende de escolha ou, grande bobagem, “personalidade”. Mesmo o cinza do céu da cidade (em alto contraste com os outros tons de cinza dos ônibus, carros, ruas, prédios e pessoas) escondem, diariamente, uma vivacidade triste, animada, sem sentido.

Noites desperta pensando nisso, refletindo entre a noite não-bonita e a outra desacordada ao lado. Alguns malabarismos, vez ou outra, para aproveitar o momento de reflexão (e não de “inspiração”, outra bobagem) e escrever algo já era de praxe. A conta de quantos desses textos estavam no lixo do quarto também era perdida.

Se o usual é o que se chama de rotina, os últimos tempos vinham sendo qualquer coisa diferente da normalidade. As mãos se confundiam entre as partes do corpo. Uma maior complexidade carnal, um jeito novo de sentir as coisas. Andava feliz com seu segredo. Mesmo as noites mal-dormidas eram motivo de alegria.

Gritaria aos quatro ventos, pudessem ser normais. Mas, mais fácil ficar com o grito na garganta, a vermelhidão de olheira no olho, o bom prazer para si própria, para aquele momento.

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Friday, May 9th, 2008

Vidas e vizinhos

O homem é esse ser cheio de esquisitices, né? Não só não pode viver sozinho, como tem que viver em sociedade. O que torna as coisas bem difíceis. Mas fazer o quê se é um pré-requisito.

Essa relação se dá de tantas formas que às vezes nem parece que tem gente no meio. É gente-computador, gente-caixa-eletrônico, gente-roleta. Tem quem olhe isso e diga que são diferentes formas de construção de identidade. Besteira (bull-shit , pra usar um termo apropriado).

Desviando um pouco a atenção para algumas situações curiosas. Tem um vizinho aqui, por exemplo, pior gosto musical do mundo. O cara só ouve clássicos, do tipo Créu (crew?), Piriguete, Maionese, bailão e por aí vai. De vez em quando ele melhora e fica no I Will Survive e Y.M.C.A., ou a trilha sonora de Lion King. Vai entender. Freud até explica, mas eu não concordo muito com ele (Freud, não o vizinho).

Como todo bom vizinho que se preze, o melhor horário pro cara ouvir aquele The Best Of é domingo de manhã, com aquele cheiro de lingüiça assando.

Não sei muito bem quem mora naquele casa, mas de uns tempos pra cá a sorte mudou um pouco. Alguém lá resolveu começar a tocar saxofone. Não sei nada de música, mas sei empiricamente que qualquer coisa é boa de ouvir no sax.

Voltando às pessoas… negócio instável. Elemento mais difícil de se entender em uma análise de conjuntura. Mas eu queria ficar no vizinho. Depois volto comentar opiniões generalizantes de pouca inteligência, são muitas por aí.

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Sunday, December 23rd, 2007

Espinho sustentável

Essa coisa de se ferir em espinho de rosa é muito romântica mas nunca me aconteceu. Já piseis em grama com espinho, sentei no formigueiro, espinho de babosa (boca amarrada com babosa!) e guerra de mamonas. Na verdade acho que as rosas hoje nem devem mais ter espinhos, que é pra isso que serve a biotecnologia, não é? Rosas sem espinhos, tomate sem semente, semente que não dá fruto e que seja plantada numa área de, no mínimo, uns dez mil hectares.

As rosas de Noel… na escola tinha um colega meu que gostava de Noel e Miles Davis. Do Noel a gente ouvia na aula de literatura, jazz na aula de sociologia, agora Miles? Ele não era da turma, claro, nem jogava futebol. Até porque, fosse filme americano a gente era os babacas queridinhos. Só que de esquerda. 2002 fizemos um plebiscito simulando eleição no colégio. Lula lá! Brilhava uma estrela, 80% da escola. Tipo aquela do “meio intelectual, meio de esquerda” que virou moda. Acho a cara da faculdade de jornalismo. Como disse o Marcelo: Entre a-aviação e a-viadagem, fiz o que faz todo jovem indeciso: faculdade de jornalismo. Nem esquerda, nem direita; nem Veja nem Caros Amigos; tira foto em preto e branco de morador de rua mas não pode se meter. Imparcialidade já era, mas essa de mudar o mundo, também.

Falando em notícia, outro dia li uma que dizia como é cool o comércio consciente. Os gringos querem pagar 5 vezes mais se for feito por uma empresa “responsável” e “consciente”. Repito a melhor frase daquele filme: só rico com consciência social não sabe que guerra é guerra.

E o espinho? Daqui a pouco a biotecnologia vai produzir uma rosa com espinhos. Sim, exemplar raríssimo. Afinal, ser romântico tem seu preço, não é?

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Friday, December 21st, 2007

Palavras de uma pessoa amada

O nome do cão é Sete. A primeira impressão era que o grande cão branco e marrom havia ganhado um nome bíblico. Logo desmentido. A verdade era que seu dono, em nome de uma dívida de sete mil reais, se contentou em ganhar o tal cachorro. Que, apesar de enorme, era tão dócil que, junto aos outros dois cães, criava com muita atenção dois gatinhos abandonados.


Enquanto eu pego amoras, ouço ao longe o barulho das crianças que estão jogando bola. Não estão no quintal de casa, mas estão na fundação de apoio a jovens que cometeram pequenos delitos, que fica por acaso do lado da pequena chácara onde mora o Sete. O Sete e os outros dois cães, os gatos, seu dono e a mulher do dono.


Não é só isso que fica ao redor da chácara. Em torno se reúnem ao menos 6 indústrias, totalizando aproximadamente 1500 trabalhadores produzindo roupas, móveis, artigos de plástico e outras mercadorias que vão correr o país. E, lá na morada do Sete, as amoras que eu estou colhendo pra fazer geléia daqui a pouco. Indústria de geléia de amora não tem ao redor, não.


Tem, sim, muita soja. Que ocupa os espaços onde não tem cidade, indústria, jovens delinqüentes ou a chácara. E tem a central da empresa exportadora de frutas, que manda frutas de vários locais da região para vários locais de outra região bem longe. Lá não tem amora, mas tem uma infinidade de frutas que vão para fora, além das que não vão pra fora do país por não terem qualidade de exportação e que a dona do Sete distribui para suas colegas de trabalho numa das fábricas que estão ali perto.


Não, a dona do Sete não trabalha na terra. O dono, sim. Cria e amestra cavalos que valem dez vezes mais que o seu carro velho e também não são dele, mas do dono da exportadora de frutas. Não para vender. Para se divertir.


Os “jovens delinqüentes” continuam jogando futebol e eu catando amoras. Atiraria no açude sem pestanejar quem me dissesse que o nosso capitalismo não é desenvolvido.


Droga de espinhos. As amoreiras não deveriam ter espinhos.


Como morro de medo de cavalos, escolho o caminho mais difícil para ir pra casa. Desejo boa viagem à dona do Sete que vai ver seus filhos após um ano de ausência e muito trabalho. Na subida, eu penso se numa sociedade capitalista desenvolvida os trabalhadores que colhem amoras se submetem aos espinhos. Por um momento, eu nem gostaria de saber.

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Friday, December 21st, 2007

Cinza em quintas

Gostava de filmes japoneses. Preferia as cenas de árvores e folhas (principalmente as de outono) do que de pessoas ou da história. Até porque nem sempre entendia. Sabia inglês, espanhol, um pouco de francês. Mas quando só achava a legenda em alemão, holandês? Via pacientemente aqueles filmes sem entender o enredo, com os atores parecendo todos serem os mesmos. Se não houvesse tantos japoneses no mundo, diria que eles eram a mesma pessoa.

Mas não.

De qualquer forma é mais interessante formar teorias sobre coisas mais bobas, como adivinhar os nomes, idades das pessoas, o que comerão na ceia de natal (se a terão). Na casa dos trinta, solteiro, morando sozinho e com um canário de estimação, uns livros empoeirados de RPG na estante.

Caiu na história por não ter nada demais, não ser interessante e nem sair do estereótipo. Não fosse só palavras teria uma fotografia com poucas cores. Talvez um pouco de laranja (que tava na moda temporada passada).

E nessa noite chuvosa de quinta (na verdade uma garoinha instável, mas chuvosa é bem mais poético) nosso herói sai à rua. Hollywood verde amassado no bolso, uns trocos pro pão, algumas latas de cerveja e, quem sabe, aquele filme novo na locadora.

Saiu, nessa noite, resoluto a não ter opiniões. Virando a quadra deixou para trás uma moça que vendia a um homem um pedra de crack, ao lado da pizzaria na qual os funcionários contam o caixa a portas abaixadas. No 603 um grito de orgasmo abafado por um vidro, uma porta e alguns metros de distância. Quando foi que o homem foi inventar o concreto? Não, hoje não. Perguntas também são opiniões.

Mercado. Oito latas de Bohemia. “Oh, amigo, tá atrapalhando a circulação das mercadorias”. Amigo, chefia, irmão. Mercadoria. Se fosse cartunista criaria um super-poder que as pessoas saberiam da onde elas vêm.

Padaria. Pão-de-queijo, mortadela. Aquela vontade condenada de apressar a moça do balcão. Pressa inexplicável, enfermidade coletiva do nosso tempo. Assim como a falta de identidade. Moça, sujeito, indivíduo, pronomes, substantivos.

Time. Além de japonês, um filme na moda. Legendas em português e dá pra fazer um comentário no bar, sexta-feira. E a cidade, seus gritos, barulhos e vida silenciam.

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